domingo, 10 de janeiro de 2010

Marcha




As ordens da madrugada

romperam por sobre os montes:

nosso caminho se alarga

sem campos verdes nem fontes.

Apenas o sol redondo

e alguma esmola de vento

quebram as formas do sono

com a idéia do movimento.



Vamos a passo e de longe;

entre nós dois anda o mundo,

com alguns mortos pelo fundo.

As aves trazem mentiras

de países sem sofrimento.

Por mais que alargue as pupilas,

mais minha dúvida aumento.



Também não pretendo nada

senão ir andando à toa,

como um número que se arma

e em seguida se esboroa,

- e cair no mesmo poço

de inércia e de esquecimento,

onde o fim do tempo soma

pedras, águas, pensamento.




Gosto da minha palavra

pelo sabor que lhe deste:

mesmo quando é linda, amarga

como qualquer fruto agreste.

Mesmo assim amarga, é tudo

que tenho, entre o sol e o vento:

meu vestido, minha música,

meu sonho e meu alimento.



Quando penso no teu rosto,

fecho os olhos de saudade;

tenho visto muita coisa,

menos a felicidade.

Soltam-se os meus dedos ristes,

dos sonhos claros que invento.

Nem aquilo que imagino

já me dá contentameno.



Como tudo sempre acaba,

oxalá seja bem cedo!

A esperança que falava

tem lábios brancos de medo.

O horizonte corta a vida

isento de tudo, isento…

Não há lágrima nem grito:

apenas consentimento.

                                          Cecília Meireles

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